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"A Pedagogia Calabriana traz a Marca da Esperança"
O estilo pedagógico
Pe. Calábria não foi um pedagogo ou psicólogo de profissão. Nunca escreveu obras de caráter estritamente pedagógico. Mas isto não representou um problema para os seus religiosos, porque o método educativo foi apreendido dos exemplos e das contínuas exortações do Pe. Calábria. Ele tinha um método que se pode sintetizar numa só palavra: o amor.
Esta educação ao amor jorrava de uma fonte sobrenatural, da fé na paternidade de Deus. Uma paternidade gratuita, vivida pessoalmente como dom e passada aos outros com a mesma gratuidade e universalidade. Um método pedagógico não escrito, mas visível e concreto nas suas relações cotidianas.
Uma bagagem cultural que o Pe. Calábria se fez lendo e selecionando alguns textos de autores que trabalharam com dedicação entre os jovens. Conhecia muito bem o método “preventivo” de Dom Bosco; tanto que o fez imprimir como anexo ao primeiro texto das constituições dos seus religiosos.
Amava ler também a obra de um autor protestante, os dois volumes do “o evangelho da vida de Foerster”. E lia com grande interesse as obras do bispo Húngaro Toth Thiamer, repletas de sabedoria e de amor pela educação dos jovens. Estes livros os recomendava também aos seus religiosos.
Não temos um texto seu organizado e sistematizado. Encontramos aqui e ali nos seus escritos brevíssimas normas que visam regulamentar o bom andamento da casa e as relações com os meninos. Eram intervenções de imediata aplicação e de extrema utilidade prática. No obstante a falta de uma obra sistemática segundo os cânones da pedagogia moderna, os resultados finais da educação saída do Pe. Calábria, isto é os primeiros ex-alunos, revelavam nas suas vidas uma postura inconfundível da marca de origem. Um modo de ver e agir, de pensar e de falar que revelava uma fonte particularmente singular. Ora, se um método deve ser julgado pelos resultados finais, devemos afirmar que o estilo ou o método educativo do Pe. Calábria foi e continua sendo válido para formar as jovens gerações.
Num artigo, escrito na revista A Escola Italiana Moderna, encontramos escrito : “A história deste humilde sacerdote, para quem tem responsabilidades educativas ou tem tarefas formativas com jovens, tem muito há ensinar. A figura apresenta-se, no mundo dos educadores, entre as mais iluminadas e significativas. Ele, que não pretendia ter fórmulas pedagógicas especiais, mas com a intuição dos santos, tornou-se um autêntico mestre das almas, um conhecedor dos corações, um formador de consciências. Sobretudo, comparado aos mais altos representantes da pedagogia cristã relembra à quem sente a responsabilidade de guia, que o problema educativo está no vértice do empenho de edificação da cidade cristã, e por este objetivo vale a pena dedicar e consumir, num ato de amor, uma existência inteira”.
Um educador Nato
Mas de onde veio a sua arte educativa? Da graça de Deus e da inclinação de seu coração generoso e sensível.
Desde jovem o encontramos rodeado pelos meninos do oratório. Sabe impor-se como chefe e como organizador dos jogos. Os seus colegas ficam encantados do seu modo de fazer, cativados pela sua docilidade e, após terem brincado seguem-no com toda a boa vontade para o catecismo e as funções na Igreja.
Quando quer conduzir ao Senhor algum menino meio rebelde empenha-se com tenacidade. Lembramos a história de Goffredo Friedmann, o menino que morava perto de sua casa, na mesma rua, rua disciplina. Tornou-se amigo. Recolheu-o da estrada e o acompanhou diariamente ao oratório para jogar e, enquanto, buscou mudar o seu caráter rebelde e irrequieto.
O jovem Calábria sabia encontrar palavras e maneiras para conquistar os corações dos meninos. Lembram-no com estima, veneração e simpatia os jovens do oratório. Temos os testemunhos do médico psiquiatra o professor Cherubino Trabucchi e do Senhor Antonio Fabro, que recebestes junto ao Irmão Emílio.
Começando a obra dos “bons meninos” procurou formar os religiosos educadores não tanto com as lições de pedagogia física, mas com exortações práticas e com avaliações contínuas. Um século antes que fossem aplicadas nas escolas públicas Italianas, Ele já tinha inventado o cartão pessoal para cada menino, que traz todas as etapas educativas, os progressos ou os insucessos, com propostas de atendimento personalizado.
Os seus colaboradores vinham de todas as camadas sociais: laureados e operários, sacerdotes e comerciantes, o pobre sem nada e o rico conde.
Pe. Calábria fazia a escolha não baseado na preparação cultural, mas com critérios que valorizavam as qualidades interiores, as capacidades profundas. A sólida formação cristã, a disponibilidade no serviço, o espírito de doação.
Pe. Calábria era claro sobre este ponto quando dirigia-se aos seus colaboradores: “ uma coisa, uma grande coisa vos recomendo: com humildade, com fé, com amor estudai a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e procurai de colocá-la em prática. Nos momentos de prova, de depressão, elevai o coração, recorrei a Jesus e não duvideis da sua divina obra, que é aquela de salvar a juventude”.
Insistia junto aos irmãos para que vissem nos meninos as pedras preciosas, os milhões, os milhares, dos filhos de Deus. Dizia que em cada rapaz existiam tesouros imensos, também se escondidos ou mascarados por grossas crostas, atitudes más, mal educações, frustrações afetivas, estado de abandono. Faz a experiência que, tocando o intimo do coração, também os assim ditos duros se comovessem. Sabia claramente quando era tempo de calar ou esperar e quando, ao invés, precisava intervir. Tinha sumo respeito pela pessoa e pelos seus pequenos segredos. Mas foi duro, inflexível, com os mentirosos e corruptores.
Os meninos, dizia, devem sentir dizer que são amados, mas sobretudo, devem vê-lo na prática. Sabemos que os rapazes, muitas vezes, tem uma capacidade de colocar a prova a sinceridade das intenções dos seus educadores. Fazem sacanagens, se rebelam, para verificar a coerência das palavras dos educadores.
Os primeiros ex-alunos da casa “bons meninos”, relembrando Pe. Calábria, se comoviam ao lembrar as suas atenções paternas e maternas nas suas relações. Muitos deles, enfim, não haviam conhecido os próprios pais.
Perguntar-se qual foi o método educativo do Pe. Calábria é como perguntar-se qual foi o método educativo de Jesus Cristo.
De Jesus o Evangelho diz: “coepit facere et docere”, isto é, “começou fazendo depois ensinou”.
Nada de cristalizado ou sistematizado no ensinamento, mas só um viver com seu estilo maleável cada dia diferente, específico para cada menino, adaptando-o, como faz a graça Divina, a infinita variedade de elementos, do temperamento e das circunstâncias. Todavia, no Pe. Calábria encontramos um fio condutor, um núcleo catalisador ao redor do qual se concentram por assim dizer todas as suas idéias e ações.
CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA EDUCATIVO CALABRIANO
O núcleo central do sistema educativo parte do evangelho de Mateus, capítulo VI: “Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem guardam em celeiros, e contudo vosso pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós por mais que se afadigue, pode acrescentar um só dia à sua vida? Porque vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Digo-vos todavia que nem Salomão, em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se pois Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé! Não vos aflijais pois dizendo: que comeremos? Que vestiremos? Os gentios é que se preocupam com todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Não vos preocupeis pois, pelo dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias”.
Desta revelação de Jesus saem as pedras angulares, as colunas sobre as quais se baseia o seu método educativo: a paternidade de Deus e o conseqüente abandono nas suas mãos paternas.
A superação da ânsia por viver, a realização dos bens materiais, a sobriedade e a simplicidade de vida.
Pe. Calábria queria que os religiosos e os cooperadores fossem imbuídos deste espírito.
Pe. Domenico Mondrone escreve: “uma vez colocados os princípios, Pe. Calábria seguiu em frente com uma lógica clara, tanto consigo mesmo como com os seus religiosos, e com as pessoas externas. Uma oferta de milhões ou de milhares, condicionada a um reconhecimento público, uma pequena publicação no jornal ou uma faixa em algum lugar da casa beneficiada, vinha sem dúvida recusada. Quem queria fazer a doação, deveria faze-lo como quer o evangelho: “não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita”.
Um profundo conhecedor do Pe. Calábria, o Pe. Carlo Semprebonni, que por muitos anos foi diretor de San Zeni in Monte, escreve: “a Idéia mestra de cada ação pedagógica é esta: Deus é pai de todos, e todos os homens são seus filhos. Deus cuida de todo ser humano, bom ou mau, com amor infinito, e é infinitamente multiforme no seu modo de amar.
Cada homem contém em si uma vocação Divina. Tarefa do educador é descobrir esta vocação, diferente em cada um, e colocar-se humildemente em contato com Deus para ajudá-la a desenvolver-se e levá-la a termo”.
Corolário da fé em Deus Pai
Da fé na paternidade de Deus vem a educação familiar e a vida de grupo. Pe. Calábria chama “família” o grupo dos seus meninos e “casa” o instituto. O exemplo vinha de um outro grande educador Veronês, Pe. Nicola Mazza, que criou para as meninas que assistia, os “grupos de família”, de oito ou dez elementos, acompanhados e assistidos por “mães” ou “tias”.
Todos, rapazes e educadores, são inseridos na obra; todos devem sentir-se membros efetivos. O bom andamento da casa d epende de todos. Portanto, cada um é chamado a responsabilidade, a santificação, ao compromisso ativo.
Pe. Calábria não amava os grandes casarões, com muitos rapazes, onde é impossível criar um clima de família. Em cada casa deviam estar presentes as figuras características de uma família: o pai (o diretor), o irmão (o educador), a irmã (a irmã que pensa na cozinha e no roupeiro)
O grande número, que lhe foi imposto dos muitos pedidos e das grandes necessidades, é superado com a criação dos “grupos”, que apagavam em parte o anonimato da massa e criavam um clima mais familiar.
O “grupo” tinha uma certa autonomia para a recreação, pelo estudo, pelo horário extra escolar. No “grupo”, o rapaz tinha uma tarefa específica: chefe, vice chefe, encarregado das limpezas, da biblioteca, do Caixa, dos jornais etc.
O grupo tornava-se um sólido organismo e um microcosmo da sociedade. Todos estavam empenhados em ajudar os mais fracos e pequenos.
Os rapazes maiores, como numa família patriarcal, ajudam o irmão educador, e as vezes o substituem. Estas são formas de auto gestão que educam a responsabilidade e a socialização. Nada, portanto, de educação de massa.
Autoridade e ordem sim, mas nada de autoritarismo.
As relações entre educadores e rapazes devem estar permeadas de amor, sem cair em paparicamentos ou sentimentalismos.
No campo da instrução ou da aprendizagem de uma arte, cada um escolhe o que lhe é mais adapto a sua personalidade e as suas capacidades.
Dizia Jean J. Rousseau: “é um grande segredo saber esperar. Grande coisa perder tempo para depois ganhar”. Pe. Calábria é um grande otimista: sabe esperar e ter fé na recuperação dos rapazes.
Um dia lhe apresentam o caso de um jovem que se demonstrava indisciplinado. Os assistentes fazem pressão para que seja afastado do Instituto. Pe. Calábria não toma logo uma decisão, prefere aguardar um tempo para refletir. Faz sempre assim, sobretudo frente a decisões importantes e particularmente delicadas. O dia seguinte Pe. Calábria ordena de preparar a carroça. Manda chamar o rapaz e leva-o consigo numa volta turística pela cidade. O jovem admira os monumentos, olha as estradas, no entanto se pergunta o porque desta benevolência do Pe. Calábria. Chegada a hora do almoço, Pe. Calábria para na casa de uma família, que conhecia muito bem, e tinha sido previamente avisada. Para a fim de almoçar nestes seus amigos, apresentando o jovem como um seu estimado “bom menino”. Retornando a San Zeno in Monte, Pe. Calábria o convida ao seu estudo: “veja meu caro, - começa Pe. Calábria – pediram-me para mandar-te embora, por causa do teu comportamento. Hoje quis te dar um prêmio, pelo bom comportamento que terás de agora em diante”. O jovem não se tornará um exemplo de santidade, mas modificará muito o seu comportamento. Tornando-se adulto, num encontro anual de ex-alunos, relembra este gesto delicado do Pe. Calábria: “um ato de amor e de fidelidade que me mudou”. Conclui o homem já envelhecido.
Dizia ainda o Pe. Calábria: “por mais que um possa parecer mau, terá sempre um lado bom. Precisamos começar ou apostar nisso. Precisamos dar um voto de confiança”.
(Extraído da biografia oficial de São João Calábria página 361 à 367 )
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